sexta-feira, 13 de maio de 2011

NARRAÇÃO DE ENIGMA

narrativa de enigma.
A narrativa de enigma tem como personagens o criminoso, a vítima, os suspeitos, o detetive. Analise o trecho "o homem de ferro estava abalado até a alma". Veja como ela indica uma característica fundamental de Sherlock Holmes: seu jeito de ser que nunca demonstra medo ou descontrole emocional. Assim costumam ser os detetives das histórias de suspense e enigma.

A narrativa se desenvolve a partir de um crime cometido, e o leitor acompanha todos os procedimentos da investigação, por meio do olhar do narrador. Uma das características da narrativa de enigma é o fato de que a história da investigação é freqüentemente contada por um amigo do detetive, no papel de narrador. Esse, na maioria das vezes, reconhece estar escrevendo um livro e, assim como o leitor, desconhece o que vai acontecer, ao longo da história - o que ajuda a criar o suspense...

Narrativa de Enigma....
Certa manhã, um conhecido advogado de um rico e excêntrico magnata procurou o Inspetor Arruda para uma conversa curiosa. xxxxContou que seu cliente, o Dr. R.K. Asso, estava sendo sabotado por uma misteriosa quadrilha de ladrões de carga. Contou ainda que a tal quadrilha, elegera como alvo para suas investidas, sua frota de transporte de valores. xxxxOficialmente, o milionário que ele representava, não fazia questão das perdas materiais uma vez que o seguro cobria tudo, mas, o problema era com a imagem da sua empresa, daí a sua preocupação. xxxxAssim, discretamente, pedia que o caso fosse investigado. Recomendou apenas sigilo
Ao ser convocado para esclarecer os detalhes do caso, o milionário logo afirma que suspeita dos seus concorrentes. xxxxExplica então o caso de um acidente, o mais recente, cujo veículo ainda se encontrava no local, a temível curva da Colina Negra, um recanto deserto, aparentemente o preferido pelos seus supostos inimigos para atacá-lo. xxxxEle então relata a versão oficial dos ocupantes do carro forte acidentado. Conta que eles, de repente se viram cercados no local, por homens armados que lhes ameaçaram. Na ânsia de escapar ao cerco, se chocaram contra a grade de proteção da estrada, e cairam no abismo. Ninguém se feriu, mas a carga em dinheiro se perdera ao pegar fogo. Xxxx
Concluindo o relato, ele formalmente acusou seus concorrentes, e mesmo disse seus nomes. xxxxComo a cena do acidente ainda estava intocada, o Inspetor Arruda resolveu ir lá pessoalmente para entender melhor o que acontecera. O local era uma estrada deserta localizada no alto de um monte conhecido como Colina Negra. Era um trecho perigoso uma vez que estava localizado numa curva bem acentuada da estrada. xxxxOlhando do topo da colina, o Inspetor viu ainda em chamas o carro forte lá no fundo do abismo. Marcas de pneus no chão perto da grade de proteção, mostravam que haviam derrapado antes de se chocar com a mesma e arrebentá-la. Xxxx
Trata-se sem dúvida de um caso complicado, pensa o Inspetor. xxxxMas não para alguém acostumado a enxergar detalhes, que facilmente continuariam ocultos diante da maioria dos observadores. Examinando com cuidado a cena do acidente, ele conclui que o milionário está mentido, quando diz que foi sabotado pelos seus concorrentes. xxxxclaro que ele não pode acusá-lo sem provas, mas as provas existem. Você sabe por que o Inspetor Arruda está tão certo disso?
Narração: o enigma
Alfredina Nery*
Especial para a Página 3 - Pedagogia e Comunicação
Você gosta de uma boa história? Pois saiba que o enigma, um dos tipos de narrativa mais populares, pode ser a chava para que sua redação prenda o leitor. Veja abaixo dicas e elementos do gênero, trechos que servem de exemplo, e saiba quem são os maiores escritores de tramas. Aproveite para conhecer também a fábula e a crônica, outras derivações da narrativa. Quem é o assassino? O mordomo, diriam alguns...
O mistério de um crime a ser desvendado é um dos modelso mais bem sucedidos de enigma... Leia a seguir um trecho em que aparece o mais famoso detetive de todos os tempos, Sherlock Holmes que, acompanhado do dr. Watson, está prestes a resolver um grande mistério: o que seriam os uivos apavorantes do cão, que assustava quem vivia no castelo de Baskerville? Quem ou o que matou os herdeiros do Castelo, dando início a uma tradição de maldição?

O Cão dos Baskervilles

[...] “Onde está ele?”, cochichou Holmes, e eu vi pela expressão de sua voz que ele, o homem de ferro, estava abalado até a alma. “Onde está ele, Watson?”
“Lá, acho eu.” Apontei para a escuridão.
“Não, lá!”
Novamente o grito de agonia passou pela noite silenciosa, mais alto e muito mais perto do que nunca. – E um novo som misturou-se com ele, um troar sussurrado e diminuindo como o murmúrio baixo e constante do mar.
“O cão!”, exclamou Holmes. “Venha, Watson, venha! Deus nos livre de chegarmos tarde demais!”
Ele havia começado a correr rapidamente pela charneca, e eu o seguia nos seus calcanhares. Mas agora, de alguma parte por entre o terreno irregular imediatamente à nossa frente, veio o último grito desesperado e depois uma pancada forte e ensurdecedora. Paramos e ficamos ouvindo. Nenhum outro som rompeu o silêncio da noite sem vento.


( Sir Arthur Conan Doyle. "O Cão dos Baskervilles". Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1987)

Enredo, personagens e narrador
A narrativa de enigma tem como personagens o criminoso, a vítima, os suspeitos, o detetive. Analise o trecho "o homem de ferro estava abalado até a alma". Veja como ela indica uma característica fundamental de Sherlock Holmes: seu jeito de ser que nunca demonstra medo ou descontrole emocional. Assim costumam ser os detetives das histórias de suspense e enigma.
A narrativa se desenvolve a partir de um crime cometido, e o leitor acompanha todos os procedimentos da investigação, por meio do olhar do narrador. Uma das características da narrativa de enigma é o fato de que a história da investigação é frequentemente contada por um amigo do detetive, no papel de narrador. Esse, na maioria das vezes, reconhece estar escrevendo um livro e, assim como o leitor, desconhece o que vai acontecer, ao longo da história - o que ajuda a criar o suspense...

A linguagem
Repare como, no trecho selecionado "O Cão de Baskerville", adjetivos e locuções adjetivas auxiliam na caracterização do ambiente sombrio.
homem de ferro,
grito de agonia,
novo som,
grito mais alto,
grito muito mais perto,
último grito desesperado,
noite silenciosa,
troar sussurrado,
grito desesperado,
murmúrio baixo e constante do mar,
pancada forte e ensurdecedora,
noite sem vento.
Observe também o papel dos advérbios: rapidamente, imediatamente que dão à cena rapidez nas ações de investigação por parte do detetive e seu ajudante.

Analise ainda a escolha de termos que ajudam a criar o suspense: "cochichou Holmes"; "nenhum outro som rompeu o silêncio da noite". Veja que "cochichar" indica que os dois personagens estão em uma situação em que os mínimos gestos são importantes. No uso do verbo "romper" há a ideia de que o silêncio pode ser prenúncio de ataque, de morte, mas nada é forte suficientemente para "romper com o silêncio", para acabar com ele.

O mais famoso dos detetives
O detetive Sherlock Holmes é britânico, culto, um verdadeiro aristocrata, criado por Conan Doyle (1859-1930). Holmes desvenda seus mistérios de maneira sutil e elegante. O detetive, protagonista de aventuras interessantes, chegou a ser tão famoso que muita gente não acredita que seja uma personagem. Seu amigo inseparável, John Watson, é o narrador dos seus casos. Watson é inteligente, mas o mestre o supera de longe, no uso do raciocínio dedutivo.

Agatha Christie
Chamada de "a rainha do crime", Agatha Christie foi autora de cerca de 84 romances policiais, escritos ao longo de meio século. Foi a criadora do famoso detetive Hercule Poirot e de Miss Marple, simpática velhinha inglesa, perspicaz na observação de detalhes da conduta humana.
De modo geral, pode-se dizer que a narrativa de enigma tem um único detetive, uma vítima e um culpado. O culpado não deve ser o detetive, nem alguém muito óbvio para o leitor: a governanta, a camareira, o mordomo. Não há desenvolvimento de romances ou paixões; não há aprofundamento na descrição psicológica, apenas o suficiente para o leitor compreender a mentalidade do criminoso e, principalmente, nada pode ser explicado pelo acaso ou pelo sobrenatural. Tudo deve ser explicado de modo racional.

*Alfredina Nery é professora universitária, consultora pedagógica e docente de cursos de formação continuada para professores na área de língua,linguagem e leitura.

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